A Wikipedia define a arte de desenrascar como:

Ok, à primeira vista parece que estão a tentar mandar o homem cá abaixo, mas se olharem com atenção vão chegar à triste conclusão que os tipos só queriam arranjar o ar-condicionado. Para além do descarado risco que o desenrascado está a correr e a sublime posição do seu segurador, reparem bem no artista da varanda… Um gajo como ele, para além do chefe e grande impulsionador da ideia, só pode dizer uma de duas imbecilidades:
- Quim, não te preocupes que estou a segurar-te.
Ou, a minha preferida:
-Quim, não olhes para baixo.
Eu ficava muito surpreendido se fosse por ele que o McGyver testasse a gravidade de um 5º andar e a solidez da calçada.
Apesar de este exemplo ter tanto de caricato, como ridículo, serve bem para introduzir o tema que vou desenvolver.
Desde que aqui estou, existe algo que me deixa sempre muito surpreendido (mesmo que, principalmente durante os últimos tempos, já esteja mais preparado): a capacidade que os Americanos não têm para fazer algo diferente do que aquilo que lhes foi ensinado, ou para resolver alguma situação que não esteja prevista by the book.
Para ser mais explícito, vou relatar dois dos mais recentes episódios, que considero ridículos, em que os Americanos resolveram as situações da maneira mais complicada possível.
Episódio I
4 patos acabados de nascer (do tamanho de uma mão de uma pessoa) meteram-se no Spa. Ao contrário da piscina, a berma do Spa é mais alto e os patinhos não conseguiam sair de lá.
Assim, lá reportei a situação e, passado uns minutos, tinha a equipa toda da Recreation à volta do Spa.
Os 40m que se seguiram foram a coisa mais fantástica e estúpida a que eu já assisti: uma pessoa dentro do Spa (que é pequenino) a tentar tirar os patos um por um da água. Escusado será dizer que a mãe dos patos andava maluca e a tentar proteger os patinhos. Assim, a situação foi-se desenvolvendo da seguinte maneira: a senhora, a muito custo, lá conseguia agarrar um pato e po-lo fora da água. Como o patinho via os irmãos e a mãe lá dentro, voltava a entrar. As outras 5 pessoas que estavam à volta do Spa, tentavam a todo o custo impedir que os patos voltassem para a piscina.
A técnica poderá parecer boa mas o que é certo é que, 40m depois, todos os patos continuavam dentro do Spa.
No entretanto eu estava a mudar de turno e, cansado de me rir tanto, fui lá dar uma ajuda: peguei num dos tubos dos lifeguards e numa toalha, meti o tubo a flutuar na água junto à berma, estendi uma toalha para fazer uma espécie de ponte entre a água e o chão e fui-me embora. Sem exagerar, 30s depois, todos os patos estavam fora da piscina.
O melhor de tudo isto foi a admiração de todos os que gastaram 40m do seu dia a correr atrás de patinhos, ao verem a situação resolvida sem esforço e sem andar a ser perseguido por uma mãe-pata enraivecida.
Episódio II
À umas semanas atrás, estiveram 4 crianças brasileiras na piscina onde eu trabalho. Aconteceu que as crianças, que tinham entre 3 e 12 anos, só falavam Português.
Os pais dos miúdos estavam no Florida Mall e deixaram as crianças sozinhas durante a tarde toda na piscina. As regras da piscina dizem que, menores de 18 anos não podem estar sem os pais na piscina. E os miúdos só estavam a fazer asneiras :p.
Os managers andavam a tentar expulsa-los da piscina (e po-los os 4 sozinhos no quarto do hotel) mas eu, com jeitinho, fui conseguindo que eles deixassem os miúdos ficar por lá (à custa de uma senhora que se responsabilizou por eles).
No entretanto, eu fui para intervalo e a senhora que estava responsável pelas crianças saiu da piscina.
Resolução do problema à Americana: só o Tiago é que fala Português, o Tiago está no intervalo (o que significa que estava na cafetaria, a 30s da piscina), queremos expulsar os miúdos da piscina, os miúdos só sabem falar Português, vamos ficar aqui a olhar para os miúdos e esperar que o Tiago venha do intervalo para falar com eles.
Assim, durante 50m 2 managers estiveram a vigiar 4 crianças, à espera que eu saísse do intervalo.
Quando eu lhes perguntei porque razão não me foram chamar (fazendo-me perder 2m do meu intervalo e resolvendo logo o problema), responderam que eu estava em intervalo e que no intervalo não se trabalha. Durante 50m todos os assuntos da piscina ficaram pendentes, à espera que o Tiago saísse do intervalo, porque o Tiago não podia ser incomodado durante a pausa.
Isto para chegar onde: desde que cá estou, por diversas coisas simplicíssimas, coordinators e managers já quase que me deram beijos, pela maneira simples e fácil com que resolvi diversos problemas (e, segundo o que falo com todos os Portugueses, isto é uma situação generalizada, entre managers, coordinators e cast members Portugueses). A maneira como eles bloqueiam quando algo diferente lhes surge pela frente, a mim, chateia-me. Às vezes dá para chorar a rir, outras vezes dá para chorar de tristeza pois nunca vi tantas pessoas a fazer as coisas exactamente da mesma maneira e tantas pessoas a bloquear exactamente da mesma maneira, quando confrontados com problemas simples, mas que não estão previstos no livro…
Outra das coisas que me fascina, é a quantidade de regras e procedimentos que os Americanos têm e o modo como eles os seguem cegamente. Tal como no caso descrito, em que chamar-me para resolver o problema e fazer-me perder 2m do meu intervalo não custava absolutamente nada, todos os dias deparo-me com situações ridículas em que, um simples acção resolvia todo um grande problema, e em que eles (Americanos), dão uma volta gigante, cumprem todos os procedimentos previstos, verificam se não existe mais nenhum modus operandi adicional e, no fim, resolvem o problema. (eu presenciei um excelente exemplo disto à 2 semanas: a coordenadora tinha de contactar a cozinha por causa de um bolo desaparecido. A cozinha não atendia e o passo seguinte era ligar para a linha de reservas da Disney e tentar falar com alguém que passasse o telefonema para a cozinha. 30m depois de ter começado os telefonemas, a coordenadora ainda estava agarrada ao telefone, a tentar falar com a cozinha. O que faz disto um bom exemplo é que a cozinha fica a 5m a pé do sítio do qual ela estava a telefonar…)
Concluindo: estou surpreendido pelo facto da grande maioria das pessoas com quem trabalho (desde as posições mais básicas, às de maior responsabilidade) não conseguir pensar pela própria cabeça e por, quando se vêem confrontados com uma situação que o necessite, bloquearem e tentarem encontrar uma solução escrita para o problema.